Quando o casamento acaba

Estou casada há 15 anos. Tenho um casal de filhos – 12 e 9 anos. Meu casamento não atravessa uma fase boa. Por que muitas pessoas casadas insistem em continuar casadas mesmo conscientes de que o casamento fracassou? Márcia Darlene, São Paulo

Quando o casamento acabou?

 

Por que muitas pessoas casadas persistem em continuar casadas mesmo quando percebem que o casamento acabou? Muitas vezes no consultório me faço essa pergunta assistindo a sofridas situações que se arrastam por anos a fio.

Pensar em acabar com o casamento é tão angustiante que, às vezes, leva o paciente a interromper a terapia, para não continuar se questionando sobre esse ponto. Tudo isso indica que há algo profundo envolvido, que não deve ser tratado com superficialidade.

Antes de analisar mais atentamente essa questão, gostaria de desfazer um preconceito, bastante comum, sobretudo entre as mulheres. Separar-se é difícil e sofrido não apenas para as mulheres, mas também para os homens. Assim como as mulheres lutam para manter sua relação no casamento, muitos homens também lutam, às vezes de maneira desajeitada, para continuar casados.

A separação de fato é sempre percebida como um fracasso: um sonho se desfaz e fica uma amarga sensação de perda. Por difícil que seja o convívio, permanece a sensação de que algo vai se perder. O convívio com os filhos, as conquistas de anos de vida representam perdas reais. Mas a sensação de perda é ainda mais aguçada quando envolve aspectos idealizados, que encobrem a percepção da realidade.

Mas como enfrentar uma eventual separação? Uma primeira questão importante é identificar se o que está dificultando a relação é de fato irremediável ou se é algo que pode ser consertado. Por exemplo, é comum as pessoas pensarem que se há algum tipo de “traição” envolvida, o casamento acabou. No entanto nem sempre isso é verdade.

Na terapia com casais a traição reconhecida por um dos parceiros muitas vezes ajuda o outro a perceber o quanto ele também desistiu da relação, de forma mais sutil e menos declarada, mas não menos dolorosa para o cônjuge.

O “reconhecimento” dos aspectos falhados da relação e a possibilidade de cada um assumir a sua parcela de responsabilidade é fundamental. De forma geral, é raro que um casamento acabe apenas por “culpa” de um dos parceiros.

O que dificulta a manutenção de um casamento é quando não há nenhuma possibilidade de diálogo que leve a identificar os pontos “fracos” da relação e a responsabilidade di cada um nesse processo. Quando um dos cônjuges assume o papel de vítima e coloca o outro no papel de carrasco é muito difícil pensar que um casamento possa continuar.

Outra questão importante que costuma fazer com que uma relação seja mantida mesmo quando ela é percebida como sendo frustrante e destrutiva são os filhos, como no caso da nossa leitora. Este é outro lugar comum que a maioria das pessoas considera difícil de ser superado.

Não há dúvidas de que os filhos sofrem com o processo de separação dos pais. Mas o que traumatiza a mente humana não é o sofrimento em si e sim a impossibilidade de que esse sofrimento seja “reconhecido” por uma testemunha qualificada, no caso os próprios pais.

Não há nada pior e mais traumatizante do que fingir que nada aconteceu, que tudo está bem, tanto no caso de uma separação como no caso da manutenção de um casamento que envolve contínuas brigas, violências verbais ou físicas e situações humilhantes para um ou ambos os parceiros.

O esforço dos cônjuges para “não ver” que o casamento acabou pode ser tão traumatizante para os filhos como a separação. O primeiro passo é reconhecer que o problema existe e tentar encará-lo da melhor forma possível.

Mas por que isso é tão difícil? Por que a maioria prefere prolongar essas situações por anos a fio? As razões podem ser muitas do ponto de vista prático. Uma das mais importantes costuma ser a incerteza que a separação impõe rompendo com as rotinas do casal, criando problemas de moradia e de caráter financeiro. No entanto, acredito que a dificuldade maior seja devida ao fato que para a psique a angústia do conhecido é sempre menor do que a angústia do desconhecido. {jcomments on}

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