Infidelidade, deslealdade e traição

Vida amorosa e sexualidade

Infidelidade, deslealdade e traição

 

 

Infidelidade e traição são palavras que abalam qualquer relação amorosa. Para a maioria dos casais, trata-se da fronteira que não pode ser ultrapassada. No entanto não é raro que tanto os homens como as mulheres traiam seus parceiros mesmo tendendo a se manterem leais à sua relação. Parece confuso, não é?

Quero esclarecer desde já que o objetivo deste artigo não é questionar ou minimizar o valor moral e religioso do compromisso matrimonial. A abordagem psicológica é feita na tentativa de entender o que acontece de fato na vida real, sem questionar se isso é o que deveria acontecer e seria recomendável do ponto de vista moral.

Uma primeira constatação talvez surpreenda. Apesar de o nosso imaginário considerar o casal de amantes como o símbolo supremo da paixão desenfreada e do prazer, quem trai geralmente não é tão feliz como parece. Ter um caso não costuma ser uma experiência fácil, Pelo menos é o que a clínica tem mostrado. Na maioria das vezes, a “traição” é acompanhada de uma sensação de frustração e de raiva.

Independentemente das convicções religiosas, parece haver no próprio psiquismo um incômodo com a infidelidade, pelo menos nos neuróticos (isto pode ser diferente nos casos de psicose e perversão). As estatísticas parecem comprovar esse dado ao mostrar que a maioria que se separa tendo um caso raramente casa novamente com a pessoa com quem teve o caso.

Outro dado curioso: na maioria das vezes, quem resolve ter um caso, raramente admite que esteja “traindo”. A experiência tende a ser percebida pelo psiquismo como uma forma de preencher algo que falta na relação com o parceiro, mais do que uma substituição de uma relação pela outra. A necessidade de ter um caso geralmente nasce da percepção que algo falta na relação e da tentativa de preencher essa falta.

Inicialmente, a paixão e a sensação do proibido erotizam fortemente a relação e distorcem a percepção do “outro’. Quando porém aparecem os primeiros conflitos, a sensação geralmente é de estar revivendo situações conhecidas. E, que ninguém se engane, os conflitos inevitavelmente aparecem. Se o(a) amante for casado(a), haverá inevitáveis limitações de tempo e de disponibilidade. Isto se torna claro, quando a relação sai das quatro paredes de um quarto de motel e é testada no terreno da vida real. Isto é particularmente doloroso quando a relação envolve alguém casado com uma pessoa que é solteira ou divorciada, que se verá passando longas horas durante os feriados e fins de semana sozinha(o), enquanto o(a) amante está com a sua família. Necessidades diferentes inevitavelmente geram conflitos no casal.

É fácil imaginar a surpresa ao descobrir que o amante não está de fato disposto a deixar o seu parceiro e a sua família. O que de fato é bastante comum. Isto nos remete novamente à constatação inicial. Quem “trai” raramente está realmente pensando em “trair”. As duas relações são cindidas, como se uma não tivesse nada a ver com a outra. Neste sentido, quem está tendo um caso, embora admita estar sendo infiel do ponto de vista sexual, não sente isso como uma verdadeira “deslealdade” com o seu parceiro, pois o que ele está vivendo fora, não é algo que ele se nega a viver na sua relação oficial.

Neste sentido é bastante comum que algumas mulheres tolerem as escapadinhas sexuais do marido, mas cobrem dele a lealdade ao vínculo, mantendo o compromisso com elas e com os filhos. Já para os homens costuma ser mais difícil tolerar a infidelidade sexual da mulher, embora existam homens que se dispõem a isso, desde que seja mantida a relação e certa lealdade ao compromisso mútuo de serem parceiros, amigos e de dar suporte um ao outro. A difusão da prática do swing, da relação aberta e o multiplicar-se de casa noturnas com essa finalidade parece confirmar essa tendência. Neste caso, não podemos falar em deslealdade e em traição, embora haja infidelidade sexual, pois trata-se de um acordo mútuo.

Quanto a essas práticas pouco comuns, não tenho dados sobre os efeitos psíquicos que provocam no casal. Acredito ser possível que o afrouxamento do vínculo possa levar com mais facilidade à separação, embora os praticantes garantam que a experiência fortaleceu o vínculo e o senso de cumplicidade. O que a prática clínica mostra é que nem sempre infidelidade, deslealdade e traição são percebidas como sendo a mesma coisa do ponto de vista psíquico, embora muito raramente a relação extraconjugal deixe de trazer angústia e seja vivida com leveza pelo psiquismo.{jcomments on}

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