Violência doméstica

 Apanho do meu marido há 40 anos. Não consigo reverter a situação – Anônima

Violência doméstica

 

Fico profundamente entristecido quando entro em contato com situações como aquela descrita pela nossa leitora. Quarenta anos vividos á sombra da violência evidentemente têm um efeito profundo sobre a psique. No entanto, escrever para o jornal representa uma forma de reação, um pequeno sinal de que a desistência não foi total. Trata-se de um grito de socorro que ainda fica no aguardo de algum sinal de esperança.

Quando a violência se instaura dentro da própria casa, infelizmente, não há como amenizar a situação. Para a mente o efeito é devastador. A casa é para o psiquismo um “lugar sagrado”, pois é o prolongamento do próprio Self da pessoa (do seu Eu profundo). Tudo o que acontece no âmbito da vida doméstica tem uma repercussão enorme sobre a psique. Por causa disso, violar o convívio doméstico representa uma intrusão psíquica tão violenta quanto um estupro.

Quando um caso desses se apresenta não é possível ser conivente com a situação. É necessário que a vítima perceba a necessidade de reagir e tomar todas as medidas para que as cenas de violência não se repitam. Na maioria dos casos o único jeito é recorrer à delegacia da mulher para obter orientação e ajuda.

As objeções que a mulher costuma apresentar diante da necessidade de tomar essa difícil decisão são as mais variadas. A primeira é minimizar a situação: “Meu marido só faz isso quando bebe”. Ou então: “Ele só faz isso quando fica muito bravo, depois se arrepende.” Ou ainda: “Não quero que meus filhos vejam o pai ir preso!”.

Não há justificativa para um homem que bate na mulher. Trata-se de um ato grave de perversão. Para a relação do casal é o fim de linha. Só temos duas alternativas: ou o compromisso sincero por parte dele de se tratar, ou, caso não admita que o seu comportamento é inadmissível, a denúncia.

Quanto aos filhos, não há nada pior e mais violento do que eles assistirem a cenas de violência na própria casa. Tudo isso os expõe a uma situação psíquica traumática, obrigando-os a participarem do clima de medo e constrangimento vivido pela mãe. Nada é pior do que isso, nem ver o pai ir preso.

Feita essa premissa, é importante perceber que a neurose de um dos cônjuges (ou neste caso talvez seja mais apropriado falar em perversão) se alimenta da neurose do outro. O que quero dizer é que no casal se instaura às vezes um funcionamento complementar em que o psiquismo de um se encaixa perfeitamente no psiquismo do outro gerando um funcionamento da dupla sincrônico, que gera uma cumplicidade perversa.

No nosso caso, existe um comportamento que sugere submissão incondicional ao outro. Isto faz com que os ataques violentos do marido nunca sejam revidados. No plano incosciente provavelmente há uma total desistência de si, um sentimento de menos-valia, de inexistência que só é amenizado quando o outro interage de forma violenta.

Saber-se alvo de violência, por estranho que possa parecer, é um sinal de que o outro reconhece a minha existência, repara em mim, mesmo que seja apenas para fazer de mim um objeto no qual projetar o seu ódio sádico. Sou alvo de violência, portanto existo: parece ser esse o gozo do inconsciente. Talvez seja essa a única forma que o inconsciente possa encontrar para fugir da sensação angustiante do “não existir”. Apanhar talvez seja a única experiência sensorial que possibilita a sensação de sentir-se viva. Talvez seja esse o “ganho secundário” da neurose do qual Freud falava.

Sei que o que estou dizendo pode parecer estranho, pois sugere quase uma cumplicidade da vítima com o seu carrasco, uma singular combinação de sadismo com masoquismo. No entanto, trata-se de uma hipótese que aponta para um funcionamento totalmente inconsciente e, portanto, não perceptível conscientemente. Isto pode explicar também porque às vezes o sádico percebe no comportamento de vítima uma autorização subliminar a machucá-la, o que contribui para reforçar o seu funcionamento de manipulação onipotente da realidade.

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