O silêncio de Deus

Pais e filhos

Gostei demais do que  Roberto Girola escreveu sobre o trauma de quem sofreu um assalto. Eu me chamo Maria Fátima de Almeida Guilherme, separada desde 1991. Moro em Taubaté com minha filha Fabíola  de 31 anos; tenho um filho, Fábio José, enfermeiro, que mora no Rio de Janeiro. Meu outro filho, JOÃO ALEXANDRE DE ALMEIDA GUILHERME, que morava , trabalhava e iria iniciar a Faculdade em SP, foi covardemente, barbaramente assassinado dentro do ônibus da Pássaro Marrom, no dia 19/05/2008. Vocês devem ter acompanhado as notícias. Estava vindo para Taubaté, para no dia seguinte ir para Valinhos, com o meu carro, pois ia iniciar em um novo trabalho, como supervisor de segurança (Petróleo), com um salário inicial de R$3.500,00. Para pessoas de bem, se  exige escrever o nome na passagem, mostrar o RG, mas e de quem é pego na estrada? O importante é o dinheiro da passagem, não? Dois sujeitos desqualificados entraram no ônibus em Arujá e anunciaram o assalto. Meu filho estava dormindo e um deles, batendo-lhe no ombro lhe disse: ACORDA PLAYBOYZINHO. Ironia, não é? Um molecão de apenas 23 anos, com um empregão, ser chamado de playboyzinho. Meu filho se assustou, se levantou num salto, e nos seus 1:78m, apanhou muito, caiu desmaiado e o outro veio e atirou nele. Roubaram todos os outros, do meu filho, roubaram a  coisa mais importante; SUA VIDA, em seus pertences não mexeram (celular, ipoid, carteira, mochila...). Outros assaltos mais estão acontecendo no mesmo Pássaro Marrom. Eu pergunto: ATÉ ONDE  OS PASSAGEIROS VÃO CONTINUAR SEM SEGURANÇA? Apesar de ver meu filho morto, ainda assim tenho conseguido agradecer a DEUS por ele não ter ficado paraplégico, inerte, sem movimentos, sofrendo muito, pois sei que ele está bem, junto de Deus. Só peço a Deus que dê força, coragem e aceitação para mim e para os meus outros dois filhos. Que esta tragédia não diminua a nossa fé, não interfira negativamente em nossa caminhada rumo ao Pai, pois estamos aqui de passagem, bem sabemos. Tenho tido dificuldade para dormir, pois a imagem dele no chão do ônibus e o revólver sendo apontado para ele e atirado, não me saem da lembrança, tenho a sensação de estar lá no momento. Eu sou Coordenadora da Campanha da Fraternidade da Diocese de Taubaté. Este ano o lema foi DEFESA DA VIDA e em 2009 será SEGURANÇA PÚBLICA. Pergunto: “O que será que Deus quer de mim?”. Se o Sr. puder dar uma palavra de alento, eu agradeço muito e sei que não será só para mim a resposta, pois muitos estão se perguntando sobre isto. Parabéns e muito obrigada.

 

O silêncio de Deus e a tragédia

Quis transcrever na íntegra esse apelo de uma mãe que perdeu o filho em circunstâncias trágicas. Apesar da dor que o transpassa, esse apelo é muito lúcido, comedido, escrito com aquela paz de espírito que somente a fé pode proporcionar.

Mesmo assim, a “cena” que está na origem do trauma não pode ser apagada da mente. Os sinais da violência emergem com força. O relato nos coloca frente a frente com a total falta de sentido dessa morte: uma vida truncada, bem no momento em que se abria para uma nova etapa, com um bom emprego, um salário digno e perspectiva de um futuro mais tranqüilo.

A violência emerge na estrutura doentia do assaltante, na sua inveja esquizóide. O jovem que volta do seu trabalho é para ele um playboyzinho. Pelo simples fato de estar do outro lado do seu revólver, o outro se torna um inimigo, o representante de uma classe social que “merece” (no pensamento distorcido do assaltante) ser punida com a morte.

Trata-se de um típico pseudo-pensamento que nasce da mente psicótica do sociopata. A realidade é totalmente distorcida: a vítima, um trabalhador, filho de uma família de classe média, é rotulado como playboyzinho. Ele precisa ser odiado pelo simples fato que não reagiu com submissão, como era esperado pela estrutura perversa de controle do sociopata.

Existe também a violência mais sutil que essa mãe identifica na falta de rotinas de segurança por parte da empresa de ônibus. A necessidade de carregar o maior número possível de passageiros faz com que uns sejam controlados, exigindo-se a apresentação de documentos, outros não. Não existem no ônibus sistemas de alarme, hoje tecnicamente viáveis, que permitam que ele seja rastreado pela polícia em caso de assalto.

Mas talvez a violência mais difícil de ser elaborada psiquicamente é a mais oculta. Trata-se da violência da própria gênese da tragédia: uma tela de eventos que vai se tecendo, fazendo com que todos os elementos se juntem em um determinado momento, naquele lugar, na escolha da vítima, no absurdo desenrolar dos fatos.

Diante disso, surge o grito: “Por que?”. Um grito endereçado a Deus, porque não há explicações humanas possíveis. A tragédia è sem sentido, absurda... Mas o grito parece ficar sem resposta. O silêncio de Deus desce pesado sobre o não sentido da tragédia. Deus também não pode responder, talvez porque Ele esteja chorando juntamente com nós humanos, juntamente com essa mãe.

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