Criança que não larga as fraldas

Pais e filhos

{jcomments on}Minha tia tem uma criança de 5 anos que ainda não consegue fazer suas necessidades por conta própria: faz tudo nas calças como se fosse um bebê. Qual seria a melhor saída? - Magda Vasconcelos de Souza, São Paulo (SP)

Criança que não larga as fraldas

Entre os dois e os cinco anos a criança começa um processo que a leva a adquirir o controle total de suas necessidades fisiológicas (coco e xixi), podendo assim dispensar o uso de fraldas. O amadurecimento nesse sentido envolve certa complexidade e costuma ser progressivo, fazendo com que a criança continue usando fraldas durante a noite, por algum tempo, dispensando-as durante o dia. Os avanços nem sempre são definitivos, podendo ocorrer “acidentes” que devem ser relevados pelos pais, que não devem porém deixar de motivar e incentivar a criança para que consiga a autônomia.

O uso do pinico pode ser introduzido aos poucos, fazendo com que a criança possa “brincar” com esse novo objeto e ir se acostumando a fazer suas necessidades em um lugar específico, para o qual ela aprende a se deslocar inicialmente com a ajuda dos pais.

A ajuda e a participação dos pais é um fator importante. De fato, um dos aspectos que dificultam que a criança deixe de usar fraldas é justamente a percepção que com isso passará a viver uma nova fase, com menor participação dos pais em sua vida.

Não é raro que a criança precise inconscientemente realizar movimentos “regressivos” (volta a uma fase anterior do desenvolvimento), para se certificar que não perdeu o afeto dos pais. O nascimento de um irmão, a volta da mãe à sua atividade profissional, a ausência prolongada de um dos pais, a troca de babá, enfim qualquer “transtorno” na rotina emocional da criança que envolva perdas afetivas, podem acarretar um processo regressivo incluindo acidentes no controle de suas evacuações, que resultará em uma maior solicitação da presença dos pais.

Por tratar-se de um processo, o seu desenvolvimento não é uniforme para todas as crianças e depende de inúmeros fatores que dizem respeito à própria criança, aos pais, à presença de irmãos e ao próprio ambiente como um todo. Enquanto nos animais o simples “treinamento” costuma dar resultados positivos, no ser humano, cuja relação com os fenômenos instintivos é muito mais complexa por envolver fatores emocionais relacionados a representações internas do mundo inconsciente, os resultados nem sempre são facilmente atingidos e mantidos.

No caso relatado na pergunta, embora possa haver indícios de atraso no desenvolvimento das habilidades que envolvem o controle das necessidades fisiológicas, não há nada que deva preocupar exageradamente os pais. Provavelmente foram usadas estratégias inadequadas que não foram bem recebidas pela criança.

Do ponto de vista estritamente psicanalítico, vale a pena acrescentar mais uma consideração. Freud relaciona os processos fisiológicos de evacuação (coco e xixi) ao momento do desenvolvimento infantil denominado fase sádico-anal. Nesta fase, as evacuações adquirem uma forma de expressão dos instintos agressivos da criança.

É possível que a criança volte a usar as evacuações como forma de expressar sua agressividade diante de aspectos ambientais (do mundo externo) que a incomodam e despertam sua raiva inconsciente. É bom frisar que se trata de um processo inconsciente, de caráter regressivo, sobre o qual a criança não tem controle consciente. Sabendo disso, os pais poderão prestar atenção para tentar descobrir o que pode estar incomodando a criança, conversar sobre isso com ela e eventualmente, se for possível, eliminar as causas do transtorno.

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