Mãe superprotetora

Pais e filhos

Mãe superprotetora

Como observava o pediatra e psicanalista inglês Winnicott, uma mãe para criar seu filho precisa apenas ser suficientemente boa. Gosto dessa expressão, pois nela não há nenhum tipo de idealização da figura da mãe. A mãe não precisa ser perfeita, basta que seja “suficientemente” boa.

Isto significa que, na maioria dos casos, a mãe seguindo o seu instinto materno tende a cumprir adequadamente o seu papel. O problema talvez seja seguir a intuição, no meio de inúmeras solicitações que vêm do ambiente esterno e do próprio mundo interno. Ora é uma crítica da sogra ou da mãe, ora é uma observação da melhor amiga, ora é um artigo em uma revista feminina sobre como cuidar do filho.

Não é fácil se proteger de todas essas “invasões” que vêm do mundo externo e seguir a própria intuição. Tudo pode ficar ainda mais difícil quando, por alguma razão inconsciente, a mãe age dominada por injunções do seu mundo interno não suficientemente elaboradas. Neste caso, o foco emocional não está mais voltado para as reais necessidades do filho e passa a ser dominado pelas necessidades internas da mãe. Dúvida, angústia, culpa podem ser sentimentos que tomam conta dela e a levam a agir de forma inadequada.

Embora esse pensamento possa parecer terrível, nem sempre o filho é bem-vindo para o inconsciente. Não importa o quanto a mãe “se esforce” para aceitá-lo conscientemente, no plano inconsciente o filho pode continuar sendo percebido como um “objeto” indesejado, um intruso ou até como algo aversivo. A força de tais afetos inconscientes conflitantes é tão mais forte quanto menos a mãe tem consciência deles.

Os motivos pelo quais tais sentimentos indesejados se apoderam do inconsciente podem ser os mais variados. Citarei alguns, extraídos da experiência clínica, apenas a título de exemplo sem pretender esgotar a vasta gama de situações aversivas que podem condicionar a não aceitação inconsciente do filho por parte da mãe.

Uma série bastante comum de situações está relacionada à própria vida conjugal, no momento em que o filho chega. Problemas econômicos, incompreensões entre o casal, ameaças à união por causa de casos extraconjugais, brigas constantes, podem tornar uma gravidez problemática do ponto de vista inconsciente.

Outra situação bastante comum está ligada ao filho temporão, sobretudo quando ele não é planejado. Depois de certo número de anos, o casal se adapta à vida com os filhos e tudo se ajusta em função de um equilíbrio econômico e emocional baseado na atual família. A chegada de mais um bebê pode romper esse equilíbrio, fazendo com que ele seja percebido como uma espécie de invasor que veio para romper o que tinha sido até então construído.

Outra situação bastante típica se dá quando um filho é planejado para “salvar” o casamento. Desde o início trata-se de um bebê que não foi desejado por ele mesmo, mas em função da “tarefa” que lhe foi atribuída arbitrariamente pelos pais (ou pela mãe). Na maioria dos casos isso não funciona e o bebê, já crescido, deixa então de ter um “sentido”. O casamento fracassou e a mãe fica com mais um problema para resolver. Mesmo quando a vinda do filho cumpre o seu papel, e o casamento é salvo, ele deixa de “fazer sentido”, pois já cumpriu sua missão.

Temos ainda o sentimento de inadequação da mãe que optou por não abandonar sua carreira e que em função disso “sacrifica” o filho. Qualquer manifestação de tensão na relação é lida como uma declaração aberta de sua incompetência como mãe.

Enfim esses são apenas alguns exemplos que explicam como o mundo interno de uma mãe pode vir a ser perturbado inconscientemente por sentimentos aversivos em relação ao filho nada agradáveis e, é lógico, absolutamente inaceitáveis do ponto de vista do bom senso e da ética do meio. Longos períodos de análise às vezes trazem à tona tais sentimentos e é muito doloroso para uma mãe, admitir sua existência.

Em todos esses casos, a mãe fica angustiada e com culpa, mesmo sem saber por que. O derivado natural desses sentimentos tão dolorosos é a ansiedade, que leva a mãe a “reparar” inconscientemente seus sentimentos aversivos em relação ao filho com um cuidado exagerado.

O cuidado ansioso pode levar a atitudes superprotetoras por parte da mãe, que são prejudiciais porque não partem de uma necessidade real do filho e sim da “necessidade” interna da mãe. Diante dela o filho fica fragilizado e incapaz de “superar” qualquer tipo de desafio e frustração. Sem uma adequada imposição de limites ele tende a manipular o mundo em sua volta, fazendo pouco caso das limitações que a realidade impõe. As chances dele vir a ter sérios problemas no futuro são elevadas.

(0 votos)
Visualizado 5078 vezes

Log in

fb iconFazer login com Facebook
Criar uma conta