A escolha do futuro

Pais e filhos

Meu filho estudou nos melhores colégios, mas agora já abandonou a 3º faculdade. Qual o problema dele? (Maria Gorete de Oliveira Nunes - Sorocaba (SP) 

O jovem e a escolha do futuro

Ter estudado nos melhores colégios infelizmente não garante que um adolescente possa enfrentar com sucesso os estudos universitários e nem lhe dar certeza sobre a escolha da faculdade que irá cursar.  No caso mencionado pela nossa leitora, o filho abandonou por três vezes consecutivas o curso que começou a frequentar. É compreensível a preocupação da mãe que se pergunta o que está acontecendo.

Pela maneira como a pergunta é formulada, parece que a mãe atribui o “problema” ao desempenho do filho na faculdade. Embora tenha estudado nos melhores colégios, parece não conseguir tirar proveito disso e dar andamento aos estudos universitários. É contudo possível que a desistência seja devida a outros fatores. Será que a nossa leitora já perguntou ao filho qual é “o problema”? Seria importante ouvir o que ele tem a dizer sobre as desistências. Provavelmente a situação é desconfortável também para ele, já que está vendo os amigos avançarem nos estudos enquanto ele está ficando para trás..

Evidentemente não posso me aventurar a falar sobre esse caso específico a partir das poucas informações de que disponho. Tentarei em contrapartida formular algumas hipóteses de caráter mais geral sobre esse momento da vida de um jovem.

A dificuldade de escolher ou de dar andamento aos estudos pode estar ligada às elevadas expectativas dos pais. Não é raro os pais projetarem nos filhos suas expectativas e, às vezes, seus sonhos frustrados. Neste caso o filho se sente incumbido de levar a cabo aquilo que os pais não conseguiram ou, caso os pais sejam bem-sucedidos, de imitá-los no sucesso ou, melhor ainda, superá-los. ’Expectativas exageradas podem ser percebidas pelo psiquismo como uma espécie de voracidade que não poderá nunca ser satisfeita, gerando uma sensação de impotência e de paralisia.

Alguns amigos que ensinam em cursos universitários têm comentado o caso de mães ou pais de alunos que procuram o professor para se queixar do baixo desempenho do filho ou de sua dificuldade para se inserir com os colegas em atividades de grupo. Estamos falando de alunos maiores de idade e portanto responsáveis pelos seus atos. Essas atitudes “intrusivas” dos pais deixam transparecer uma total infantilização do jovem que certamente não ajuda para que ele assuma suas responsabilidades. O aluno vítima de uma superproteção desse tipo por parte dos pais certamente terá dificuldade para assumir as rédeas de sua vida e sonhar seus próprios sonhos.

Este tipo de atitude por parte dos pais estabelece uma relação completamente errada com os filhos, que não são encorajados desde o ginásio a assumirem sua responsabilidade em relação aos estudos e à vida. Não é raro que pais separados ou que dedicam muito tempo à sua profissão descontem seu “complexo de culpa” com atitudes superprotetoras em relação aos filhos. O resultado costuma ser desastroso.

Por outro lado, o jovem é chamado a fazer escolhas importantes para sua vida muito cedo. Não é raro que a escolha da faculdade seja percebida como uma escolha definitiva, da qual dependerá o resto de sua vida. A hipervalorização dos estudos e da carreira como determinantes da felicidade futura do jovem gera uma grande ansiedade na hora de escolher um curso universitário. Tudo isso evidentemente não favorece escolhas serenas e acertadas.

Finalmente, gostaria de apontar outro problema, bastante comum na maioria dos cursos universitários. Os primeiros dois anos costumam ser recheados de disciplinas de caráter introdutório que, na opinião dos calouros, pouco têm a ver com a profissão que escolheram. É importante que pais e professores os orientem sobre essa dificuldade, para que possam superar o obstáculo.

As questões acima apontadas não pretendem esgotar o assunto, mas nos permitem ter uma idéia de quanto seja difícil esse momento na vida de um jovem. Algumas escolhas de segundo grau oferecem um suporte “vocacional” aos alunos nesse sentido. Nos casos em que o jovem vive algum tipo de impasse (como apontado pela nossa leitora) será necessário recorrer a um profissional para ajudá-lo a superar o problema, que, como foi dito acima, pode não ser apenas circunstancial.

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