A memória do bebê

Pais e filhos

Tenho um bebê de 7 meses, ele é muito ativo. Minha dúvida é sobre o que ele registra nessa fase com relação às emoções e os fatos. Como funciona a memória do bebê? A.J.C., de Aparecida (SP)

A memória do bebê

No decorrer de uma análise é impressionante observar como fatos ocorridos no início da vida do bebê ficam marcados no inconsciente sob forma de memórias emocionais. Esse tipo de “lembranças” está ligado a percepções sensoriais (percepções tácteis, visuais, auditivas, olfativas e do paladar) e a experiências mais sutis que envolvem as mensagens emocionais transmitidas pelo ambiente que repercutem gerando reações emocionais no inconsciente do bebê.

A maneira como a mãe está lidando com suas próprias emoções repercute no bebê, assim como repercutem as “alterações emocionais” percebidas no ambiente como um todo. Poderíamos dizer que o bebê é, do ponto de vista emocional, é um radar muito sensível que capta todos os sinais que lhe são transmitidos pelo ambiente externo, sobretudo pela mãe. Ela é em última análise o “filtro” através do qual o bebê sente o ambiente externo, sobretudo nos primeiros meses de vida.

Tais percepções, no entanto, não são inicialmente ligadas a representações específicas, como acontece mais tarde. Inicialmente, trata-se apenas de percepções que ficam gravadas no inconsciente sem um conteúdo específico, uma espécie de sensação solta que não pode ser nomeada ou representada. Estas memórias primitivas costumam, no decorrer da vida, estar presentes e desencadear reações emocionais aparentemente inexplicáveis, quando alguma situação emocional é percebida como sendo similar àquilo que o bebê viveu no início de sua vida.

Lá pelos seis meses a criança começa a ter uma percepção mais clara de que existe um “fora” (o mundo externo, incluindo a mãe) e um “dentro” (ele), enquanto antes, todas as experiências eram referidas narcisicamente apenas a ele próprio, como se fossem apenas algo dele, pois a existência do mundo externo ainda não era percebida.

A partir do momento que o mundo “não eu” é descoberto, começa uma experiência nova, voltada à assimilação do mundo externo. Se tudo corre bem, isto acontece sem que o mudo interno do bebê fique ameaçado ou destruído. Nesse sentido, a mãe, ajudada pelo pai, é a grande mediadora, que auxilia o bebê a assimilar a existência da realidade externa e das limitações que ela impõe.

Geralmente, esse período costuma culminar com o desmame, que é a finalização de uma relação mais estreita com a mãe e com o seio, percebido pelo bebê como sendo algo “dele”. Na medida em que o seio começa a não estar mais totalmente disponível, e logo a estar indisponível, ele aprende que o mundo externo impõe limites aos seus desejos e que, para realiza-los, ele deve ter algum tipo de “negociação” com o que está fora dele (mãe, babá, pai, avôs, etc.).

É este o momento em que o bebê começa a perceber que nem sempre tudo está ao seu alcance, que há horários, interrupções, limites, ausências. Aos oito meses aproximadamente, o bebê já é capaz de perceber que a mãe pode se ausentar, sem que isso represente para ele o “desaparecimento” da mãe. A imagem dela é guardada na memória e por algum tempo ele pode suportar a sua ausência.

Nesta fase, os elementos do mundo externo (pai, irmão/ã, avós, etc.) são assimilados e entram a fazer parte do mundo emocional do bebê, que já não os percebe apenas como extensões da mãe e dele mesmo, mas como elementos em si.

Aos poucos o triângulo amoroso mãe, pai, bebê se amplia e se torna mais complexo, sendo investido com uma maior complexidade emocional por parte do bebê, culminando na experiência emocional que Freud definiu como complexo de Édipo sobre a qual já falamos repetidamente nestes artigos.

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