Ausência dos pais

Pais e filhos

Meus pais tiveram no total 6 filhos. Os 4 primeiros têm atualmente entre 25 e 35 anos. Os outros dois têm entre 10 e 18 anos. Há cerca de 6 ou 7 anos, minha mãe e meu pai faleceram. Primeiramente, minha mãe morreu de câncer. Seis meses depois, surpreendentemente, meu pai morreu de infarto. Na época, meus irmãos mais novos tinham por volta de 4 a 12 anos, respectivamente. Depois disso, os irmãos mais novos ficaram sob a guarda e educação dos irmãos mais velhos. Gostaria de saber se esse fato pode ter influência na formação da personalidade deles. É possível vincular algum "prejuízo" em relação à ausência dos pais na educação deles. M. J. P. M.  -  Rio de Janeiro

Ausência dos pais

  Embora existam várias teorias sobre o desenvolvimento infantil, há um certo consenso entre os especialistas sobre a importância dos primeiros anos de vida para o desenvolvimento psicológico da criança. A pesquisa clínica de D. W. Winnicott demonstrou que os primeiros 6 meses de vida revestem uma importância particular, pois é nesse período que ocorrem transformações psíquicas fundamentais (cf. o artigo escrito no Jornal em ). Neste período, a presença da mãe é fundamental. Embora a criança tenha uma certa tolerância para as falhas da mãe e suporte até certo ponto sua ausência, existe um limite além do qual a falha e a ausência da mãe se tornam insuportáveis, precipitando a criança naquilo que Winnicott chamava de angústias impensáveis. Choro contínuo, convulsões, perturbações do sono, podem ser sintomas de que algo não está correndo bem. A relação com a mãe é a primeira experiência que a criança faz de “encontro” com o mundo externo. O vínculo que se estabelece com a mãe, nesta fase inicial da vida, determina a forma como futuramente a criança passará a sentir e o mundo e as outras pessoas significativas de sua vida e a .se relacionar com eles. Se a mãe foi ansiosa, invasiva, descuidada, ausente, agressiva ou ambígua (amorosa, sedutora e ao mesmo tempo agressiva), a criança passará a sentir a relação com o mundo o com os outros como sendo angustiante, invasiva, perigosa, ambígua, podendo causar retraimento, um senso de não existir para os outros, de não ser importante, junto com uma sensação de que os outros nunca estão à altura daquilo que se deseja deles. Se a relação com a mãe tiver sido uma experiência insuportável para a criança (isto infelizmente pode acontecer apesar dos “esforços” da mãe para ser uma boa mãe), prevalecem os núcleos psicóticos e a criança se fecha no seu mundo interno e o mundo externo e os outros não podem ser encontrados (é o caso da criança autista, por exemplo). Supondo contudo que o processo inicial de desenvolvimento tenha ocorrido de forma adequada, a criança começa a se relacionar com o mundo externo e, aos poucos o descobre. Num primeiro momento os cuidados paternos são sentidos apenas como uma continuação dos cuidados maternos, mas aos poucos a criança começa a perceber que pai e mãe são pessoas diferentes e a se relacionar com eles de forma diferente. Neste momento alem da relação com a mãe, também a relação com o pai passa a ser importante. A falhas de um dos pais podem ser supridas pelo outro. Freud identificou em torno dos quatro/cinco anos, um momento importante do desenvolvimento infantil, que ele denominou “complexo de Édipo”. Nesta fase a criança define sua sexualidade, se identificando com o pai ou com a mãe e, ao mesmo tempo, percebe que existem regras que devem ser observadas, se abrindo assim para o convívio social. A figura paterna é particularmente importante neste período, pois ele passa a representar para a criança as exigências do mundo externo (lei) e a ajuda a se “separar” da mãe. A perda de um dos pais nestas diferentes fases, representa portanto um trauma mais ou menos grave, na medida em que as figuras paterna e materna não puderem ser substituídas por uma presença de alguém que, de forma continuada e adequada passe a fazer o papel deles.

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