Solidão virtual

Comportamento

Existe uma pessoa tão só que cria vários perfis (masculinos e femininos) no Facebook para interagir consigo mesmo e com os outros. Que tipo de estrutura psíquica é condizente a essa pessoa ou essas pessoas? (Andrea Ramos via Facebook)

Solidão virtual

 A mensagem acima (levemente reformulada), publicada por um dos meus contatos no Facebook, chamou minha atenção.

Não há dúvidas de que o mundo virtual se presta para que as pessoas vivam suas fantasias mais ocultas, sem que seja necessário fazer as contas com aquilo que Freud chamava de princípio da realidade. O espaço é virtual. O que ali se cria pode ser igualmente virtual. O princípio de realidade é suspenso e substituído por uma realidade que é criada onipotentemente na mente do seu criador. No entanto, por estar inscrita no mundo virtual esta realidade de alguma forma existe, pois outras pessoas podem interagir com ela, considerando-a real. Estamos em um campo intermediário que, embora tenha as características de uma alucinação, não é propriamente psicótico. É virtual.

Curiosamente, muito antes que surgisse o mundo da informática, um psicanalista já falava da importância desse espaço intermediário, que fica entre os objetos reais e o mundo interno da psique. Winnicott o chamava de espaço transicional, pois ele proporciona à mente uma transição entre o seu mundo interno e o mundo dos objetos reais. O nosso primeiro objeto transicional é o seio da mãe, depois o bichinho de pelúcia, mais tarde o brinquedo. Com o passar dos anos, nossos brinquedos mudam, mas nós continuamos “brincando” com objetos que existem no mundo real, mas que são investidos pelo nosso mundo interno e usados para criar algo que traz em si a marca de nossa subjetividade: uma música, um poema, uma fotografia, uma pintura, uma viagem, uma roupa, um negócio lucrativo, um sítio, etc

A Internet é um brinquedo que oferece a possibilidade de criar no plano virtual, algo que é revestido de aspectos, às vezes ocultos, da personalidade do usuário. No entanto, o que chama a atenção no post que caiu em minha caixa postal é a profunda solidão que leva alguém a criar personagens fictícios para poder livremente conversar com eles e ter assim a sensação que sua vida é habitada por alguém que se importa com ele (ou ela).

O mundo virtual permite ao usuário se cindir em vários personagens que interagem entre si, mudando inclusive de sexo. O que o esquizofrênico faz à custa de uma cisão real de sua personalidade, o usuário do Facebook a que nos referimos consegue criando alguns perfis no mundo virtual da Internet.

Freud, em um dos seus textos, define a psicose como uma defesa contra a realidade. Quando ela se torna insuportável para o inconsciente, este cria de forma onipotente, através da fantasia alucinatória, um remendo, um mundo paralelo no qual a mente passa a viver. Freud a define como sendo uma defesa poderosa contra a frustração à qual o sujeito se vê exposto ao entrar em contato com a realidade.

Certamente algo parecido acontece com o nosso usuário anônimo do Facebook. Diante de uma realidade frustrante, ele cria seu próprio mundo habitado por amigos imaginários, homens e mulheres, com os quais pode conversar, desabafar e, quem sabe, até namorar. O brinquedo deixou de ser apenas um brinquedo: ele se tornou um mundo paralelo, perdendo todo contato com o mundo real.  

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