Mudanças de humor

Comportamento

Caro Girola, sempre ouvi falar que a adolescência é um período de formação, e é normal que, durante esse tempo, a pessoa tenha “altos e baixos” em relação à auto-estima. Eu já tenho quase 30 anos e sinto essas mudanças muito constantes e intensas em mim. Não são poucos os dias em que choro desesperadamente em frente ao espelho. Com bem menos freqüência, fico horas me olhando e gostando do que vejo. Estou confusa. Não sei por qual tipo de processo estou passando, gostaria de uma palavra. — Anna Rita – Lorena (SP)

Mudanças de humor

Os altos e baixos e as mudanças repentinas de humor, embora sejam característicos da adolescência, não se restringem apenas a esse período. Essas oscilações representam uma tentativa do psiquismo de encontrar um equilíbrio entre os dois pólos que caracterizam o seu funcionamento. Mesmo em pessoas consideradas saudáveis, o funcionamento psíquico oscila entre os núcleos neuróticos e psicóticos. Neste sentido acho que poderíamos brincar com as palavras e dizer que o objetivo de uma boa terapia é ajudar os psicóticos a se tornarem um pouco mais neuróticos e os neuróticos um pouco mais psicóticos.

Na linguagem comum, identificamos esse dois pólos como sensações de depressão e de excitação. Embora às vezes remetam a estados de ânimo desagradáveis, ambos os núcleos são importantes para o nosso psiquismo. Os estados de excitação nos fazem sentir bem dispostos, animados, confiantes, mas também ansiosos e inquietos. Nossa auto-estima nesses momentos está em alta. Quando excessiva, a excitação pode contudo nos levar a um sentimento de onipotência e a uma autoconfiança exagerada, nos predispondo para atos insensatos que podem nos prejudicar. Além disso pode gerar um estado de excitação inconcludente, ou seja que não nos leva a nada, pois acabamos ficando presos na própria excitação.

Os estados de depressão nos fazem sentir frustrados diante das dificuldades que a realidade nos apresenta, sem ânimo, inseguros, e angustiados. Quando este estado se instala, nossa auto-estima cai lá em baixo, tudo fica difícil, sem sentido e predomina uma sensação de paralisação. Ficamos sem iniciativa e sem “vontade” de fazer nada.

Para entender melhor como funciona nossa psique, podemos dizer que ela tem um papel fundamental: mediar o encontro do nosso mundo interno com o mundo externo. Nos animais os instintos garantem reações adequadas diante dos estímulos que provêm do mundo externo e das necessidades internas (fome, sede, desejo sexual, sensação de frio e de calor, etc.). No ser humano, esse processo não é puramente instintivo, mas é mediado pelo pensamento. A capacidade de “pensar” se sobrepõe às reações puramente instintivas e permite que as informações provenientes dos sentidos sejam processadas e transformadas em representações internas. Tais representações revestem nossos impulsos e permitem que eles sejam “significados”, ou seja, que sejam encaixados em um quadro de referências composto por sensações, imagens, ligadas a uma rede de memórias emocionais. Somente assim os impulsos passam a fazer “sentido” para nós e podem buscar um caminho para sua “realização” no mundo externo. Nem sempre porém esse quadro de referências é encontrado. Neste caso os impulsos internos ficam sem chance de encontrar um caminho para se expressarem, gerando um estado de angústia e de ansiedade. Outra possibilidade é que encontrem o caminho, mas que acabem sendo barrados por um farol vermelho, o farol da censura interna, pois sua expressão no mundo externo é percebida como sendo “perigosa” ou “proibida”. Também nesse caso o impulso volta para trás e fica frustrado.

Quando um estado “depressivo” se instala os impulsos ficam represados. Seus caminhos de expressão são barrados por uma série de faróis vermelhos. Em um estado de excitação acontece o contrário. Os faróis deixam de funcionar e os impulsos afloram com força, quase não encontrando obstáculos para se manifestarem.

Suas sensações na frente do espelho estão provavelmente ligadas a oscilações entre esses dois estados emocionais. O importante é perceber que eles não são estados permanentes e sim apenas tentativas de buscar o equilíbrio interno.

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