A mãe pode sentir raiva do bebê?

Comportamento

Em artigo publicado recentemente, o senhor mencionou que as mães podem sentir raiva, até mesmo ódio, de seus bebês. Algumas vezes, observamos esse tipo de comportamento (percebemos que a mãe tem raiva da criança) e não podemos deixar de nos sentir chocados. Isso seria muito comum ou teria algum motivo especial para acontecer? Isto é, aconteceria somente com algumas mães ou com muitas delas? Teria alguma relação com a situação da família, pessoal e financeira? De qualquer forma é lamentável sentir ódio do próprio filho, ainda mais de um bebê, culpando-o pelos problemas familiares. Uma mãe assim não deveria ser mãe.. Ana Beatriz, Brasília

A descoberta de que a terra gira sobre seu eixo e em torno do sol, como mais um dos tantos planetas do sistema solar, representou um grande choque para a humanidade, que acreditava que habitávamos o centro do universo. As descobertas do fundador da psicanálise, Sigmund Freud, sobre a psique humana também chocaram: Mostraram que a nossa consciência controla apenas uma pequena parte de nosso universo psíquico e que a maioria dos acontecimentos desse universo está fora de seu alcance e de seu controle. Ou seja, Freud descobriu que não temos consciência de tudo o que sentimos e fazemos.

Suas observações refletem a dificuldade que todos temos de aceitar que a consciência é apenas um dos planetas de um sistema psíquico muito mais complexo. Na realidade, sentir raiva ou não independe de nossa vontade e é algo que foge ao nosso controle. Os sentimentos não estão, em sua origem, sob o controle de nossa consciência.

É claro que existe um “sistema” de segurança, que procura manter sob controle ações e sentimentos que não seriam aceitáveis do ponto de vista do convívio social e de acordo com nossos princípios éticos. Freud chamou esse sistema, que também é em grande parte inconsciente, de sobre-eu ou superego, como alguns preferem traduzir. Esse sistema constitui-se desde o início da vida psíquica e se articula de maneira mais complexa a partir dos primeiros quatro ou cinco anos de vida. Esta instância psíquica se situa entre o nosso inconsciente e a nossa consciência e media nossas relações com a realidade. Os sentimentos de raiva, antipatia, inveja, ciúme, etc., que todos nós consideramos desagradáveis e que são condenados do ponto de vista moral, emergem das complexas relações entre os “planetas” que constituem o nosso universo psíquico.

Embora pareça absurdo, sentir raiva do bebê, ou da criança, , é perfeitamente normal. As próprias canções de ninar freqüentemente manifestam esse ódio inconsciente, com expressões que se formos ver são nada adequadas: “A cuca vem te pegar; Boi, boi da cara preta, etc.”. A capacidade de cuidar do outro, de se preocupar com ele surge, do ponto de vista psíquico, da necessidade de “reparar” a culpa que sentimos por ter raiva e ódio do outro, sobretudo quando o outro é alguém importante para nós. Mas então estamos condenados a agir como trogloditas? Não é bem assim, os nossos princípios éticos nos orientam e nos ajudam a lidar com esses produtos do nosso psiquismo. Sentir raiva é uma coisa, deixar que a raiva nos possua é outra. Mas para poder lidar com nossos sentimentos, não adianta negá-los, muito ao contrário, quanto mais os negamos, mais eles atuam no inconsciente. É importante poder nomeá-los (reconhece-los como nossos e identifica-los) e acolhê-los dentro de nós, para poder,, num segundo momento, lidar com eles.

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