Violência e saúde

Psicanálise

Violência e saúde: uma perspectiva psicanalítica

(c) Roberto Guido Girola

 A Roberto e Guido, meus irmãos ceifados

ainda crianças pela violência nazista,

cujo nome carrego como símbolo da

Fênix que renasce das cinzas do ódio.

Resumo

O artigo investiga o fenômeno da violência em suas manifestações individuais e coletivas e sua relação com as características constitutivas do psiquismo humano. Uma vez destacados os funcionamentos psíquicos e ideológicos que levam ao ocultamento da violência,  o autor analisa como o fenômeno é abordado por Freud na carta dirigida a Einstein. Nela Freud analisa a inevitabilidade da violência uma vez que se estabelece o estado de direito e a partir da estrutura psíquica que envolve os instintos de vida e de morte. A teoria psicanalítica sobre a agressividade é aprofundada com as contribuições de Melanie Klein e Donald W. Winnicott, que introduzem algumas mudanças significativas de perspectiva, apontando para a importância da agressividade para o desenvolvimento saudável do psiquismo humano.

 

Unitermos

Violência, agressividade, desenvolvimento, psicanálise, saúde

Os diferentes rostos da violência e o fetiche da segurança

“Estamos vivendo num período especialmente marcante. Descobrimos, para nosso espanto, que o progresso aliou-se à barbárie.” (FREUD, 1939, p. 67). Esta constatação de Freud, escrita às vésperas de Segunda Guerra Mundial, se aplica perfeitamente aos dias de hoje. A violência paira sobre a humanidade e, como uma sombria ave de rapina, afunda suas garras a esmo. Os meios de comunicação nos apontam cotidianamente seus rastros. Trata-se de uma espiral de barbárie onde vítimas e carrascos se confundem. Embora se multipliquem de forma obsessiva as rotinas de segurança, a sensação de estarmos desprotegidos é cada vez maior. A violência pode estar à espreita como um animal feroz e nos agarrar inesperadamente em suas presas.

O termo violência remete à idéia de violação, de intrusão agressiva no espaço físico ou psíquico de uma pessoa, de uma comunidade ou de um povo. A sensação correspondente é a de angustia diante de um perigo iminente real ou imaginário. A reação pode ser o despertar dos núcleos de agressividade da pessoa, do grupo, ou então uma sensação de “paralisação”, de “congelamento” diante do inevitável. Se no primeiro caso podemos ter uma espiral ascendente de retaliações, no segundo caso temos a sensação real ou imaginária de estarmos “à mercê” do outro.

Diante da espiral da violência, a segurança representa um desejo cada vez mais acariciado, mas nunca alcançado. Poderíamos dizer que se tornou mais um dos “fetiches” que compõem o nosso imaginário e, como tal, se constituiu em um objeto de consumo. Embora remeta ao objeto ausente, o fetiche carrega em si a sua força erótica e por isso é desejado e cobiçado. Como objeto do desejo, se torna na sociedade capitalista uma mercadoria, cujo valor de troca aumenta na medida em que for escassa sua oferta e grande sua demanda. Neste caso, porém, a demanda e a oferta são simbólicas e não apenas numéricas. Quanto maior for a sensação de exposição à violência, maior será o valor simbólico da oferta de segurança. Neste sentido, a segurança como objeto de consumo passou a ser  também sinônimo de status social, realimentando o ódio e a violência inscritos na exclusão dos que não podem exibir seus ícones.

Antes de adentrarmos o significado psíquico da violência, é importante esclarecer que o termo carrega em si um significado ambíguo.  Existem de fato várias formas de violência, algumas manifestas, outras veladas, outras ocultas. O grau de “ocultamento” varia não apenas na consciência individual, mas também no imaginário coletivo, que, de forma consciente ou inconsciente, está inscrito na maneira como a sociedade “pensa” a violência e a expressa através dos vários discursos que percorrem a cultura. A atenção da opinião pública está voltada para a violência manifesta, às vezes se volta para as formas veladas de violência, mas raramente consegue trazer para consciência os seus aspectos ocultos. É sobretudo nos consultórios de médicos, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas, no segredo do confessionário ou durante as “consultas” com algum orientador espiritual, que os aspectos ocultos da violência aparecem em toda sua dramaticidade, como uma séria ameaça à saúde pessoal e coletiva.

Gostaria de citar, para ilustrar o que está sendo dito, um Interessante artigo de Roberto Heloani (2003), que ilustra uma manifestação típica de violência invisível que atinge o mundo do trabalho, hoje marcado por uma intensa competitividade e pela constante ameaça da perda do emprego.[1] Trata-se de “uma forma particular de violência sutil e perniciosa” (HELOANI, 2003, p. 58), que se desenvolve em um ambiente hostil, “em que um ou mais indivíduos coagem um terceiro indivíduo de tal forma que ele é levado a uma posição de fraqueza psicológica” (HELOANI, 2003, p. 58-59). O termo usado é assédio moral, que consiste “na constante e deliberada desqualificação da vítima, levando-a a uma posição de fragilidade, com o intuito de neutralizá-la em termos de poder” (HELOANI, 2003, p. 59). Como o próprio autor frisa, com o tempo, o assédio pode gerar patologias nas vítimas que passam a se sentir inseguras, incompetentes, desatentas, deprimidas, estressadas. Em alguns casos o assédio moral pode levar ao assédio sexual, descrito nos filmes Disclosure e Oleana.

Por trás do “ocultamento” da violência existe uma necessidade. Como veremos mais adiante, a violência está ligada a funcionamentos que habitam o psiquismo humano e que se manifestam sob forma de agressividade. Trata-se de núcleos psicóticos de nosso psiquismo, povoados por “pensamentos impensáveis”, objetos bizarros (BION, 1957), ou seja objetos psíquicos sem ligação representativa, uma mistura de percepções sensoriais e emocionais inconscientes, que não podem ser significados e que, portanto devem ser psiquicamente evacuados e atacados, alimentando assim nossos núcleos paranóides e os processos projetivos. A agressividade, contudo, é “percebida” internamente como algo ameaçador e perigoso. Na civilização ocidental, marcada pelos ideais éticos cristãos, é ainda mais difícil que a agressividade encontre um lugar simbólico na cultura que permita sua manifestação, tanto no plano pessoal como comunitário. Para exorcizá-la é necessário projetá-la para fora de nós, em um outro, real ou imaginário, que se torna o depositário de nossa violência interna. Este processo não é apenas individual, mas opera também nos grupos. Como no caso dos indivíduos, cada agrupamento humano de fato carrega em si uma porção de agressividade que o mantém coeso e o ajuda a perseguir seus objetivos, mas que também o leva a “ocultar” sua própria violência e a projetá-la para fora de si em outro grupo ou em alguns dos seus membros. Uma vez localizada claramente fora de nós ou fora do grupo, a agressividade pode se tornar “manifesta” e ser odiada e estigmatizada no outro. O ritual judaico do bode expiatório tinha exatamente a finalidade de viver de maneira simbólica essa necessidade do nosso psiquismo.[2]

 O “ocultamento” da violência pode ser lido também sob um vértice ideológico. Se de fato o indivíduo e o grupo necessitam de uma dose de agressividade para conseguir seus objetivos, em uma sociedade cada vez mais competitiva e excludente, a agressividade deve ser cada vez maior. Evidentemente, quanto mais próximo for o objeto do desejo das necessidades básicas,  mais intensa será a luta para consegui-lo e menos controlável a agressividade envolvida nesse movimento. Neste sentido, o capitalismo neoliberal, ao promover uma maior concentração de renda e uma administração “alucinada” dos recursos naturais, está revelando cada vez mais o seu rosto excludente e a sua barbárie. Isto porém não pode ser “revelado”, deve permanecer oculto para manter a “ilusão” de que a proposta neoliberal representa o “eixo do bem”, ou seja a maneira mais civilizada de viver, sob a égide do direito e da “democracia”. 

Se não for possível um processo de “significação” que permita equacionar os processos ocultos e a realidade, o caminho será o sintoma. Podemos dizer portanto que as várias manifestações da violência que conhecemos (seqüestros, assaltos, tráfico de entorpecentes, terrorismo, etc.) são manifestações sintomáticas de um mal-estar mais profundo que a sociedade se recusa a “pensar” (desemprego sistêmico, concentração de renda, uso predatório dos recursos naturais, etc.).  A violência manifesta é o sintoma de uma violência oculta que não pode ser “significada” e “pensada”.  Creio que aqui possamos fazer uma extrapolação e usar o termo pensar no sentido bioniano, embora estejamos falando de processo coletivos de caráter ideológico e não de processos inconscientes. Bion concebe o “pensar” não apenas como uma forma racional de apreensão da realidade, mas como um aprender com a experiência, uma forma de equação que envolve um processo racional e  emocional  de apreensão tanto do mundo interno, no caso o que a ideologia não permite pensar, quanto do mundo externo (BION, 1962, p. 130-131), ou seja da realidade em toda a sua complexidade. Trata-se evidentemente de uma forma de “pensar” que inclui a possibilidade de suportar o impensável e as tensões dialéticas entre os vários aspectos que caracterizam nosso mundo interno e o mundo externo (Cf. BION, 1987).

 

Freud e a violência

Nos escritos de Freud encontramos vários textos dedicados ao estudo da agressividade. Como médico e “cientista”, filho de uma época dominada pelo pensamento positivista, sua atenção estava constantemente voltada para os fenômenos que ele observava em seu consultório e que o levaram várias vezes a reformular suas teorias. Neste sentido, era impossível não levar a sério às manifestações que apontavam para a presença da agressividade nos seus pacientes, que ele acabou ligando á própria ontogênese do aparelho psíquico. Existe contudo um texto em que Freud se dedica de maneira explícita ao tema da violência. Trata-se de uma série de considerações sobre a guerra escritas em resposta a uma carta que Einstein lhe dirigiu. Nesta correspondência Freud se volta para as manifestações culturais e para o funcionamento psíquico do grupo e apresenta de forma bastante clara e sintética sua teoria sobre os instintos. Creio que, por se tratar de um texto escrito nos últimos anos de vida de Freud e concebido numa perspectiva não propriamente “psicanalítica”, nos permita uma abordagem clara e acessível do seu pensamento.

Já as primeiras considerações deste texto nos surpreendem, pois parecem ir exatamente na direção contrária do que consideramos ser o senso comum dos povos civilizados e daquilo que poderíamos definir como uma certa ideologia do direito. “Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra” (FREUD, 1933, p. 198). Por ser inevitável que existam conflitos de interesses entre os homens, o que mantém coesa uma comunidade é a lei. Esta deve ser aplicada mediante o uso da força, e portanto com o uso da violência, para que os interesses do grupo sejam preservados quando contrastam com os interesses dos indivíduos. Num convívio “civilizado”, portanto, “aquilo que prevalece não é mais a violência de um indivíduo, mas a violência da comunidade.” (FREUD, 1933, p. 199). Qualquer comunidade, contudo, reúne indivíduos (ou grupos) de força desigual, vencedores e vencidos, senhores e escravos. É evidente portanto que as “leis são feitas por e para os membros governantes e deixa[m] pouco espaço para os direitos daqueles que se encontram em estado de sujeição” (FREUD, 1933, p. 200).

As coisas se complicam se levarmos em conta dois fatores. Quem detém o poder, de fato, tende a se colocar acima da lei (uma forma de violência bastante comum hoje: a corrupção). Em segundo lugar, os membros oprimidos do grupo fazem constantes esforços para obter mais poder e ver reconhecidas na lei algumas modificações efetuadas nesse sentido — isto é, fazem pressão para passar da justiça desigual para a justiça igual para todos “(Freud, 1933, p. 200). Estes dois movimentos causam em última análise um “crescimento da lei”, mas antes que isso aconteça deflagram novos conflitos e, portanto, mais violência. O ideal, para Freud, seria se ao poder coercitivo da lei, mediante o uso da força, fosse substituído o poder das idéias, criando uma identificação dos seres humanos em torno de determinados valores e princípios comuns. Freud, contudo, não parece ser otimista quanto à viabilidade dessa perspectiva: “Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência” (FREUD, 1933, p. 202).

O fenômeno da violência parece portanto inevitável no convívio entre os povos. A visão aparentemente “pessimista” de Freud se funda na sua teoria dos instintos, que ele ilustra neste texto de forma resumida.

“De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, (...)  aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. (...) Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos.” (FREUD, 1933, p. 202-203) 

Para Freud, “o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito.” (FREUD, 1933, p. 203).

A pulsão de morte é um conceito introduzido por Freud em 1920, na sua obra Além do princípio do prazer (1920). [3]  Estamos nos anos que seguem a Primeira Guerra Mundial. Com a mudança radical das estratégias de guerra e dos armamentos bélicos, o número de mortos tinha sido enorme, de ambos os lados, dando uma conotação particularmente violenta e cruel ao conflito. Na Áustria, o quadro do pós-guerra é dramático: instaura-se uma terrível crise econômica. O clima social é conturbado, como no resto da Europa. Em Viena falta alimento e combustível para  o aquecimento. Os bens de primeira necessidade são racionados. Para tornar o panorama ainda mais dramático, a Febre Espanhola ceifa milhares de vítimas. A própria mulher de Freud adoece e a filha dele morre, deixando dois netos.

A conceituação da presença de um instinto[4] de vida e de um instinto de morte tornou-se necessária contudo independentemente desse contexto histórico, a partir da própria clínica psicanalítica, onde Freud constatou a existência  de alguns fenômenos, que não seria possível explicar mantendo apenas a libido (princípio do prazer), como único fator propulsor do dinamismo humano.  A resistência de certos pacientes ao tratamento analítico, o fenômeno da repetição, ligado a situações traumáticas, e a própria peculiaridade da transferência que se instala durante uma análise e que remete a situações dolorosas da vida do paciente, fizeram com que Freud concebesse a existência de “uma força que está se defendendo por todos os meios possíveis contra  o restabelecimento e que está absolutamente decidida a apegar-se à doença e ao sofrimento” (FREUD, 1937, p. 259).  No mesmo texto, ele define esta força como um “instinto de agressividade ou de destruição”.

Com Freud a consciência, a grande protagonista da filosofia do XIX século, perde a sua centralidade. O homem freudiano é um ser dividido. O conceito de inconsciente abre uma cisão insanável na condição humana. Com o inconsciente instaura-se no ser humano um conflito inelutável, que tem em sua raiz o desejo, um desejo, que, como dizia Schopenhauer, é insaciável... A função da terapia é  “uma educação para a realidade” (MEZAN, 1998, p. 341). O homem é chamado a superar a ilusão de poder possuir de forma onipotente o Objeto do seu desejo. Abre-se aqui uma série de desafios, que, como explica Mezan, nos confrontam com a cultura, a religião, a ideologia e a própria Filosofia, se esta for concebida com pretensão de possuir o Real. Neste sentido a “filosofia” freudiana, não é pessimista, e sim profundamente realista. Viver torna-se um desafio que supõe saber “conviver”, como diria Heidegger,  com a situação dramática do dasein, cuja “essência” é ser para a morte. Sartre aponta em seus escritos que viver é uma situação dramática, pelo fato do ser humano ser “condenado” a ser livre e a escolher. Ambos reconhecem e assumem a cisão que Freud introduziu de forma tão magistral.

A violência como fator constitucional interno

Esta visão do psiquismo humano é retomada por Melanie Klein, que faz da “pulsão de morte” de Freud um dos pontos centrais de suas teorias sobre o funcionamento mental. Um dos principais méritos desta autora é de ter se debruçado sobre o desenvolvimento psíquico da criança nos primeiros anos de vida. Suas formulações, seguindo a tradição freudiana, mantêm o foco nos funcionamentos intrapsíquicos do bebê, mas já apresentam  alguma abertura sobre as relações interpsíquicas e sua interferência na formação do psiquismo humano. A partir da pesquisa clínica desta autora, a psicanálise se depara portanto com o dinamismo das relações do psiquismo em seus estágios iniciais com o mundo externo (relações de objeto) e, em particular com o primeiro representante do mundo externo, a mãe (seio materno). “Sob o predomínio dos impulsos orais, o seio é instintivamente sentido como sendo a fonte de nutrição e,portanto, num sentido mais profundo, da própria vida“ (KLEIN, 1957, p. 210). Dependendo da “capacidade do bebê de investir suficientemente o seio ou seu representante simbólico, a mamadeira” (KLEIN, 1957, p. 210), restaura-se, portanto, a perdida unidade pré-natal e o senso de segurança que a acompanha.  Se isto acontecer, o “seio bom é tomado para dentro e torna-se parte do ego, e o bebê, que antes estava dentro da mãe, tem agora a mãe dentro de si” (KLEIN, 1957, p. 210). Klein relaciona o anseio universal pela segurança do estado pré-natal à necessidade premente de idealização. Tudo o que é idealizado, no entanto, se torna persecutório, diante da inadequação dos objetos externos à voracidade do desejo. O próprio parto introduz as primeiras ansiedades persecutórias, que podem se aliar às sensações desagradáveis do bebê ainda no estágio pré-natal. Na própria relação com a mãe, as relações com o mundo se prenunciam portanto como ambíguas, duplas  (seio bom e seio mau).

Klein estabelece uma importante relação entre os impulsos destrutivos e a inveja:

“(...) a inveja é uma expressão sádico-oral e sádico-anal de impulsos destrutivos, em atividade desde o começo da vida, e que tem base constitucional” (KLEIN, 1957, p. 207).

Inveja, ciúme e voracidade adquirem para esta autora uma particular relevância por determinar a forma como o sujeito se relaciona com o objeto bom (desejado e amado). Por se tratar de impulsos que acompanham as manifestações de violência creio seja interessante ver como Klein as define. “A inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável — sendo o impulso invejoso de tirar este algo e de estragá-lo” (KLEIN, 1957, p. 212). Já o ciúme, embora seja relacionado à inveja, envolve uma relação com, pelo menos duas pessoas e diz respeito “ao amor que o indivíduo sente que lhe é devido e que lhe foi tirado, ou está em perigo de sê-lo, por seu rival” (KLEIN, 1957, p. 212). “A voracidade [por sua vez] é uma ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo que o sujeito necessita e o que o objeto é capaz e está disposto a dar” (KLEIN, 1957, p. 212). De todos esses impulsos, evidentemente a inveja é o mais destrutivo.

No que se refere aos impulsos destrutivos, os fatores constitucionais mantêm para esta autora a mesma importância que já fora destacada por Freud e por Abraham: “a voracidade, o ódio e as ansiedades persecutórias (...) têm uma base inata” (KLEIN, 1957, p. 261). As variações na intensidade desses fatores constitucionais são “ligadas à preponderância de uma ou outra das pulsões na fusão das pulsões de vida ou de morte postulada por Freud” (KLEIN, 1957, p. 261) e delas depende a força ou a fraqueza do ego. As dificuldades de suportar a ansiedade, a tensão e a frustração são indício de um ego fraco que, para sobreviver, deve recorrer a um uso intenso de defesas, tais como a negação, a cisão e a onipotência.[5]  Em contrapartida “um ego constitucionalmente forte não se torna presa fácil da inveja, e é mais capaz de efetuar a cisão entre bom e mau” (KLEIN, 1957, p. 261-262). Neste sentido, o ego seria menos sujeito aos processos “que levam à fragmentação e que fazem parte de características esquizo-paranóides acentuas” (KLEIN, 1957, p. 262). Klein não nega que as experiências externas possam ter algum impacto no desenvolvimento emocional do bebê, mas “o impacto dessas experiências externas é proporcional à força constitucional dos impulsos destrutivos inatos e das ansiedades paranóides decorrentes” (KLEIN, 1957, p. 262). A existência de fatores inatos seria portanto um limitador para a própria terapia psicanalítica e para a constituição do caráter da pessoa.

Na linha de pensamento até aqui esboçada, a violência, por ser ligada aos instintos destrutivos, apresentar-se-ia como um fator constitutivo, inscrito no próprio funcionamento do psiquismo humano e na polaridade estabelecida entre a existência do instinto de vida e do instinto de morte. A violência seria portanto um aspecto do psiquismo que deve ser “elaborado” e integrado, trazendo  para a consciência suas conotações inconscientes. No decurso de uma análise bem-sucedida “junto com o ódio, a inveja e a destrutividade, outras importantes partes do self  que haviam sido perdidas são recuperadas” (KLEIN, 1957, p. 265). A pessoa passa assim a sentir-se “mais inteira, em ganhar controle [grifo meu] sobre o próprio self  e em ter um sentimento mais profundo de segurança em relação ao mundo em geral” (KLEIN, 1957, p. 266). Se a agressividade é constitutiva, a violência parece ser um aspecto inelutável da existência humana, um animal feroz que somente pode ser mantido sob controle se for fechado numa jaula. As esperanças de podermos lidar com a violência, sem o uso da violência são portanto poucas.

A violência necessária

Um importante avanço na concepção do desenvolvimento do psiquismo humano e no papel da agressividade nesse processo é representado pela teoria de D. W. Winnicott.[6] Como frisa Abram no verbete dedicado ao termo (2000), a “agressão” e a “destruição” desempenham na obra de Winnicott “um papel fundamental em sua teoria do desenvolvimento emocional, representando-se como o ponto chave de vários de seus mais conhecidos conceitos” (ABRAM, 2000, p. 4).  Dois pontos contudo diferenciam este autor na maneira de conceber a agressividade e o próprio desenvolvimento psíquico. Em primeiro lugar, o papel dos fenômenos interpsíquicos  que ocorrem sobretudo nos primeiros meses de vida. À diferença de Klein, para Winnicott, a provisão ambiental representa um fator fundamental para a constituição do psiquismo humano. Sem uma mãe “suficientemente boa” o bebê que nasce com um potencial de integração não se constitui psiquicamente como um ser integrado.

Outro fator importante é a recusa deste autor de aceitar o instinto de morte kleiniano. Para Winnicott, de fato, a inveja e o ódio são estruturas primárias, cuja manifestação é fundamental para o crescimento emocional do bebê. “Na teoria da agressão de Winnicott é o ambiente externo que exerce influências sobre o modo com que o bebê irá lidar com a agressão inata” (ABRAM, 2000, p. 4). Um ambiente favorável faz com que esses instintos possam ser integrados de forma positiva na personalidade do bebê, habilitando nele a possibilidade de “brincar” e sucessivamente de “criar” e de interagir no mundo da cultura. Ao contrário, uma provisão ambiental marcada pela privação pede acarretar processos destrutivos e violentos para o próprio psiquismo. A agressividade, portanto, dependendo do ambiente interpsíquico que caracteriza o desenvolvimento do indivíduo nos primeiros anos de vida, pode ser integrada à personalidade de forma saudável, ou então ela é “atuada” de forma destrutiva e anti-social. Neste sentido para Winnicott  a agressividade instintiva, “apesar de estar pronta para ser mobilizada a serviço do ódio, originalmente é parte do apetite, ou de alguma outra forma de amor instintivo” (citado em ABRAM, 2000, p. 7-8).

Um breve texto de Winnicott nos permite compreender em que sentido ele se distancia de Freud e de Klein, abrindo-nos os horizontes de uma clínica psicanalítica completamente nova:

“Segundo meu ponto de vista tanto Freud como Klein desviaram-se (...) e refugiaram-se na hereditariedade. O conceito de instinto de morte poderia ser descrito como uma reafirmação do pecado original. Já tentei desenvolver o tema de que, tanto Freud como Klein  evitaram , assim procedendo, a implicação plena da dependência e, portanto, do fator ambiental.” (WINNICOTT, 1975, p. 102)

Ao assumir o papel fundamental do ambiente, uma nova variável é inserida na equação do psiquismo e, com isso, o que antes era considerado hereditário, passa a ser atribuído à provisão ambiental. Com isso, a visão de Winnicott não admite aqueles fatores de caráter “determinista” típicos tanto da visão freudiana, como da kleiniana.

Outro conceito muito importante para uma concepção mais ampla da agressividade e da própria violência é aquele da agressão primária. Para entender a importância da agressividade na constituição do psiquismo humano, é necessário retomar um pressuposto fundamental da teoria winnicottiana. Para este autor, o ser humano nasce como um ser que dispõe de uma “tendência” à integração, mas que ainda não é integrado. Winnicott concebe o desenvolvimento psíquico como um fenômeno complexo. Desde o nascimento, o bebê passa por três processos que são fundamentais. Trata-se da integração, da personalização e da realização. Os cuidados (caring, handling) e a sustentação (holding) maternos possibilitam sucessivas apropriações psíquicas tanto da realidade interna (self), como da realidade externa. Estes processos fazem com que o bebê comece a se sentir como uma unidade psíquica que habita um corpo em uma continuidade espaço-temporal, relacionando-se com a realidade, que, aos poucos, é percebida como externa. O processo de desenvolvimento psíquico passa por etapas que envolvem uma relação com os objetos que vai, se tudo correr bem, do fechamento narcísico onipotente à possibilidade de estabelecer relações envolvendo uma realidade compartilhada que envolve pessoas “totais”. 

A crueldade primária é o que possibilita ao ser humano vivenciar uma relação com o mundo externo em que os objetos que se apresentam são percebidos como objetos internos, fruto da “sonhação” alucinatória do bebê, ao mesmo tempo em que eles começam a adquirir uma consistência prória. O objeto desejado é, por assim dizer, criado internamente, alucinado pelo bebê e, ao mesmo tempo, se o ambiente (mãe) for suficientemente bom, ele será encontrado lá fora. Isto acontece quando a mãe consegue se adaptar às necessidades do bebê, sem ser intrusiva. O que possibilita ao bebê sair aos poucos do seu fechamento narcísico e, ao mesmo tempo, ter acesso ao próprio self ,  é a “oposição” que vai se criando com os objetos externos. Na medida em que os objetos subjetivos começam a ser percebidos como objetos “não eu” eles são atacados, justamente por fugirem ao controle onipotente do bebê. Se o objeto (mãe) suportar o ataque sem ficar destruído,[7] o bebê sente que o objeto sobreviveu à sua fantasia destrutiva e que, portanto, ele tem uma consistência própria. A partir desse momento, surge a possibilidade da “preocupação” com o objeto.  Constitui-se assim um espaço intermediário, o espaço da ilusão, situado entre o mundo interno do bebê e o mundo externo e povoado por objetos transicionais (nem internos, nem externos). Sua característica é o paradoxo, pois não é nem interno, nem externo. Em outros termos, o bebê percebe que pode se relacionar com o mundo numa relação de confiança, sem que o mundo seja percebido como uma ameaça à sua integridade psíquica (self).  Naturalmente se a oposição externa for demasiadamente intrusiva o sentido de self  é abortado e o mundo externo é sentido como perigoso e ameaçador. Como defesa o psiquismo desenvolve uma estrutura que Winnicott define como falso self.

Os instintos agressivos, são extremamente importantes pois permitem ao self  de manter “um sentimento de realidade e de relação”. Se na teoria psicanalítica clássica a agressividade é uma reação ao encontro com o princípio da realidade que frustra a onipotência narcísica do inconsciente, na teoria winnicottiana ”é a pulsão destrutiva que cria a qualidade da externalidade” (citado em ABRAM, 2000, p. 21) e portanto a possibilidade de se relacionar de forma saudável com o mundo externo. É a agressividade que permite ao ser humano de se relacionar com o mundo sem perder o contato com o seu si-mesmo (self), permitindo assim aos núcleos psicóticos e neuróticos da personalidade de conviverem em um equilíbrio saudável.

A radicalidade da teoria winnicottiana nos permite algumas considerações finais. Em primeiro lugar, embora a agressividade faça parte do funcionamento psíquico humano, a violência não é necessariamente a sua resultante natural. Em suas manifestações individuais e sociais a violência é fruto de uma impossibilidade de integrar os instintos agressivos, tanto no plano psíquico individual, como coletivo.  A violência ambiental à qual o indivíduo e os grupos são submetidos provoca uma dissociação interna, uma fragmentação psíquica que leva ao uso destrutivo da agressividade. A agressão, contudo, nem sempre tem como alvo o mundo externo. Às vezes, o movimento dos ataques sádicos reverte “para dentro”, resultando em funcionamentos masoquistas autodestrutivos.  As manifestações sintomáticas desses ataques dirigidos pelo psiquismo contra o próprio sujeito são as mais variadas. Dependência química, alcoolismo, tendência a fazer dívidas, auto-sabotagem, etc., são algumas delas. Quando o ataque vai em direção ao outro, os sintomas que revelam a “atuação” dos núcleos agressivo são outros. Agressões verbais, ou físicas, inveja, ciúme, voracidade, enfim toda uma gama de ataques que tornam o convívio humano muito sofrido.

Por outro lado há uma violência que é necessária. Quando o indivíduo ou o grupo sofrem intrusões maciças, a violência é um sinal de saúde psíquica, pois é através dela que se torna possível a sobrevivência a essas situações destrutivas.        

 

Bibliografia

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WINNICOTT, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

 

 

 



[1] Sobre o mesmo tema, cf. também  “Quando o chefe vira réu”, um artigo publicado na revista Época de 27/09/2004. De acordo com dados divulgados nesse semanal  1 a cada cinco trabalhadores brasileiros sofreria assédio moral no trabalho. 

[2] Sobre este tema remeto `ao interessante livro de René Girard (2004).

[3] Para uma melhor compreensão deste conceito cf. GIROLA, 2004, p. 44-50 e 90.

[4] Em português a palavra trieb tem sido normalmente traduzida por “pulsão”; em inglês a tradução clássica dos textos de Freud, revisada pelo próprio autor empregou o termo instinct, preferindo-o a drive (Cf, GIROLA, 2004, p. 39). Para um estudo mais aprofundado remeto ao verbete “pulsão” do Dicionário comentado do alemão de Freud (HANNS, 1996, p. 338-354)

[5] A negação é um “ataque ao objeto” que resulta na negação de qualquer aspecto bom nele existente. A cisão é a incapacidade de superar a fragmentação dos objetos parciais que são percebidos como bons/ruins e integrá-los em objetos totais, em condições de reunir em si tanto aspectos bons quanto ruins, daí a tendência de idealizar ou “demonizar” os objetos. A onipotência leva a pôr entre parêntesis os objetos externos e suas exigências e a atuar como se eles não existissem.

[6] Para uma visão mais completa sobre a complexa teoria do desenvolvimento psíquico desse autor remeto ao capítulo “Winnicott: rumo a uma clínica do Self ” publicado no livro A psicanálise cura? (GIROLA, 2004, p. 127-160).

[7] A mãe fica destruída quando não consegue se adaptar às necessidades do bebê, que são assim substituídas, de forma intrusiva, pelas necessidades dela. É o caso da mãe ansiosa, que despeja no bebê cuidados resultantes de suas necessidades, geralmente ligadas a sentimentos de culpa. A mãe “histérica” ou agressiva, que reage com violência às necessidades do bebe, geralmente manifestadas pelo choro ou por um estado de inquietação, também demonstra não “suportar” a estrutura narcísica e onipotente do bebê. Em todas essas situações o ambiente se demonstra não confiável e o bebê se retrai, refugiando-se em uma estrutura adaptativa precoce (falso self ). 

Última modificação em: Sexta, 23 Janeiro 2015 16:50
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