Realidade, mas qual realidade?

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Uma das coisas que mais me fascinam como psicanalista é perceber o quanto a ilusão de enxergar a Realidade nos domina e captura nossas vidas e a forma como nos relacionamos com o mundo. O problema é que a Realidade está sempre ali, nos desafiando, se impondo a nós como um corpo estranho e impenet6rável (Heidegger e Lacan chegaram a descrevê-la como a Coisa), questionando nossa percepção e a organização do nosso pensar.

 

Um exemplo disso é essa “Coisa” que denominamos de crise. Afinal o que está acontecendo? Nosso país perdeu definitivamente o rumo? Devemos nos mudar daqui? Mas ir para onde? Ir para o sonho americano trumpiano, ou então ir para a velha Europa, onde muitos europeus estão procurando uma “Exit” porque também estão insatisfeitos e achando que o atual modelo não se sustenta? Haveria ainda opções mais radicais a favor de uma Realidade que alguns alegam enxergar com absoluta clareza, mas essas opções vamos deixar para o EI e para os fundamentalistas de todo tipo.

 

Poxa, a Realidade tinha acabado de se manifestar com clareza para os “coxinhas”: os petistas são o grande problema do nosso país. Finalmente enxergamos a “realidade”, uma realidade da qual sempre desconfiamos, pois afinal somos mais instruídos, mais competentes, menos “tapados” do que “eles”. O problema é que “os petistas” estão olhando para a mesma “Coisa” e enxergando algo completamente diferente.  Estaríamos de fato às voltas com um grande complô da direita? Tudo é mentira e a realidade na qual sempre acreditamos é de fato a Realidade, pois nós somos , mais evoluídos e articulados? Ambos concluem irritados: a Realidade é o que nós enxergamos e não venham querendo questioná-la!

 

Isso é nada mais do que o reflexo de outra grande realidade que se impôs no século passado: o socialismo marxista como grande alternativa ao capitalismo neoliberal.  Ambos hoje estão colapsados. Afinal o que é Real? Onde está essa Coisa que chamamos de Realidade? Além disso, de acordo com esses loucos da Física Quântica, nem a própria matéria, na sua dimensão infinitesimal é livre do benefício de se transformar conforme o “observador”...

 

Tudo isso sugere a necessidade de suportar a “turbulência emocional” á qual se referia Bion, apontando-a como pré-condição do pensamento. Parece que a “escuta flutuante” do Real não é apenas reservada ao psicanalista, mas a todos aqueles que querem escutar o respirar da vida.

 

Última modificação em: Segunda, 01 Maio 2017 15:31
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