Adolescentes grávidas

Adolescentes grávidas

O relatório anual do State of the World’s Mothers, publicado em 2004 com dados coletados entre 1995 e 2002 (http://www.savethechildren.org.uk), mostra que 13 milhões de nascimentos (um décimo de todos os nascimentos do mundo) são de mulheres com menos de vinte anos e que mais de 90% destes nascimentos ocorrem nos países em desenvolvimento, onde a proporção de parturientes com menos de vinte anos varia de 8% no leste da Ásia até 55% na África.

Enquanto nos países do primeiro mundo se constatava nas últimas décadas dos anos 90 uma queda dos índices de gestantes adolescentes, no Brasil os dados apontavam para uma preocupante tendência de aumento do fenômeno. Dados mais recentes parecem indicar uma pequena queda dos índices, mas ainda o número de mães adolescente no nosso país é superior àquele dos países mais desenvolvidos.

Dados do SUS indicam que a porcentagem da faixa etária dos 10 aos 19 anos no total dos partos nos hospitais conveniados chegou a 26,5% em 1997 contra os 22,34% em 1993 (os dados foram extraídos do artigo VVAA, Gravidez na adolescência: perfil sócio-demográfico e comportamental de uma população da periferia de São Paulo, Brasil, publicado pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo no Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 23(1):177-186, jan, 2007, que servirá de base para as demais considerações). Alguns estudos apontam também uma diminuição da idade das adolescentes grávidas, tornando esses dados ainda mais preocupantes.

Alguns dados sobre as mil adolescentes grávidas entrevistadas na pesquisa acima mencionada, realizada na periferia da cidade de São Paulo, ajudam a entender melhor o perfil das jovens envolvidas.

A faixa etária das entrevistadas variava de 11 a 19 anos. Apenas 7,2% eram casadas legalmente, mas 62,7% diziam viver com um companheiro. Do total, 42,3% viviam exclusivamente com o companheiro e/ou filhos constituindo um núcleo familiar independente, ao passo que as demais (57,7%) continuavam morando também com outros familiares.

Em relação à classe econômica, 93% das participantes pertenciam às classes C, D e E, sendo que 68% diziam ter uma renda familiar mensal de até quatro salários mínimos. A principal fonte de sustento provinha do companheiro e/ou pais da adolescente.

Quanto à inserção social, de maneira geral, a pesquisa revela que, independentemente da faixa de idade, a maioria das adolescentes não estudava nem trabalhava na ocasião da entrevista.

A idade média para o início da vida sexual das jovens entrevistadas é de 15 anos, variando de 10 a 19 anos. Em contrapartida, a idade média do parceiro sexual dessas jovens é de 21 anos, variando de 15 a 51 anos. Trata-se portanto de jovens que, de maneira geral, foram sexualmente exploradas por homens mais velhos, algumas delas (a maioria) ainda sendo menores de idade.

Quanto aos cuidados tomados para se preservar tanto da gravidez como das doenças sexualmente transmissíveis, 80,3% das entrevistadas alegaram nunca ter usado preservativo e 77,5% só de vez em quando. Para mais de 81% das gestantes a gravidez não foi planejada.

A entrevista constatou ainda uma forte pressão social para que o casal formalize uma união e passe a conviver sob o mesmo teto, mesmo sem oficializar o casamento ou ter uma independência financeira.

Achei interessante divulgar os dados dessa pesquisa porque mostram que a gravidez na adolescência é um fenômeno que atinge de forma dramática a população com menores recursos financeiros. Vale contudo a pena notar que, as adolescentes grávidas das classes sociais mais favorecidas (A e B) em muitos casos optam pelo aborto, menos acessível financeiramente para as classes sociais mais pobres.

Em um número preocupante de casos a pesquisa revela que a adolescente foi submetida a algum tipo de violência e que foi abusada enquanto menor.

Tanto as futuras mães adolescentes como os parceiros se dizem, na maioria dos casos, felizes com a gravidez e demonstram ter um completo despreparo para enfrentar a situação de forma responsável, com graves conseqüências para o bebê que irá nascer em uma situação de desamparo e, portanto, com enorme probabilidade de se tornar um adulto com problemas.

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