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Não gosto do namorado de minha filha

Minha filha de 16 anos começou a namorar um menino de 18 muito diferente dela: Enquanto ela está terminando o segundo grau, cheia de perspectivas, ele teve de parar os estudos por não poder pagá-los daqui em diante. Ele é negro e tem uma aparência frágil. Minha filha é uma menina exuberante que, perto dele, parece murchar. A família dele é de gente simples e honesta, mas a mãe é analfabeta e o pai gosta de freqüentar bares na rua e ter rompantes machistas. Gostaria de mostrar à minha filha que ela merece conviver em ambientes mais interessantes e saudáveis, mas qualquer coisa que eu digo soa como mero preconceito para ela, que me acusa de racista, por exemplo. Penso que isso pode decorrer de baixa autoestima, o que me arrasa. Está muito difícil conviver com essa situação. O que faço?

 

Não gosto do namorado de minha filha

 

A situação a que se refere a carta é complexa, pois movimenta mecanismos psíquicos inconscientes que envolvem ambas as partes. Os pais costumam ter um “sonho” sobre o futuro de seus filhos, que inclui também um modelo idealizado daquele que será o parceiro ideal para eles. Todos os preconceitos raciais e sociais incidem profundamente no perfil “ideal” que os pais esboçam dentro de si, influenciados pelo meio social em que vivem. Além disso, pai e mãe têm também, dentro deles, um modelo idealizado inconsciente de mulher ou de homem, que incidirá na “montagem” do perfil ideal. Desta maneira, nenhum par “real” que aparecer estará à altura do filho ou da filha e sempre causará algum tipo de decepção. Por outro lado, se os filhos influenciados pelos pais, escolherem um par para agradá-los, a probabilidade é muito grande que este se revele mais tarde uma grande decepção. Apesar de os pais quererem o “bem” dos filhos, o que eles consideram o“bem” está inevitavelmente ligado aos seus desejos, à sua maneira de ser, à sua visão da realidade. O grande papel dos pais não é portanto transmitir aos filhos sua maneira de ser, mas ajudá-los a descobrir a deles.

No caso de sua filha, ela é uma adolescente que está enfrentando os problemas normais que a idade apresenta: Grandes transformações físicas, uma ansiedade diante do “novo”, medo de se afastar do ambiente protegido da infância e necessidade de “se separar” dos pais são alguns dos problemas que se apresentam. Nesta idade o/a adolescente costuma desenvolver uma certa aversão aos pais, uma incontrolável necessidade de “negar” tudo o que vem deles. Portanto, o modelo ideal de par, sonhado pelos pais, pode ser “odiado” pelos filhos. Pode até ser que sua filha tenha escolhido, inconscientemente, exatamente o oposto do que os pais desejavam, justamente para agredi-los. Por se tratar de processos inconscientes, quanto mais os pais se opuserem, mais o adolescente se  “fechará” no seu mundo, parecendo incapaz de enxergar a realidade. Quanto menos a oposição for levada a sério pelos pais, mais rapidamente se dissolverá a necessidade do adolescente de assumir aquela atitude emburrada, arredia que o caracteriza.  Naturalmente isto não significa abandonar o adolescente a si mesmo. Seria exatamente o contrário do que ele precisa. A atitude agressiva e hostil é uma maneira de dizer: “Eu estou aqui, olhem para mim, eu existo, preciso do seu afeto”. Creio portanto que sua filha precisa do seu apoio, no sentido de auxiliá-la a descobrir o que ela realmente quer para o seu futuro. Demonstre portanto carinho e compreensão para ela, “oferecendo” o seu ponto de vista com serenidade, para ajudá-la a refletir.

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Roberto Girola

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